Algumas iniciativas vão além dos pagamentos e pendem para o crédito e o financiamento.
A digitalização de ativos financeiros ou reais está permitindo novos formatos de transações e investimentos. A chave é a representação digital do ativo (tokenização) em rede segura de blocos imutáveis (blockchain), com regras imputadas a algoritmos (smart contracts).
A argentina Agrotoken criou cartão Visa baseado em colheita, armazenada ou em curso, para produtores rurais. Além de contraparte no mundo analógico, a tokenização movimenta o marketplace da empresa, com parceiros como Banco CNH, para financiamento de equipamentos, e Cibra, fornecedora de fertilizantes.
O sistema digitalizou o ambiente de barter, onde grãos são trocados por insumos, com maior capacidade de fracionamento da garantia. O modelo já atende soja, milho ou trigo e cada tonelada corresponde a um token, divisível até quatro casas decimais. Cana-de-açúcar, café e boi têm projetos por encomenda e a empresa é investida da Visa, com quem participou do ambiente de testes lift, do Banco Central (BC), junto da Microsoft e da Sinqia.
Outras iniciativas pendem para o crédito e o financiamento. A BlockBR, fornecedora de infraestrutura de tokenização para agentes financeiros, tokenizou cédulas de crédito bancário (CCBs) para empresas do agronegócio selecionarem as melhores ofertas de crédito para seus fornecedores de grãos e gado.
A empresa nasceu em 2021 com a tokenização de uma CCB para a indústria de metais SD. A oferta para um único investidor institucional alcançou R$ 1,25 milhão, com pagamento de 1,88% ao mês. Segundo Cássio Krupinsk, CEO da BlockBR, o resultado foi o barateamento da operação, com a taxa de crédito caindo de 2,8% para 2,03%.
Atualmente, a empresa atende clientes como a Rio Bravo Investimentos, para quem tokenizou cota de carteira administrada, estrutura um fundo de investimentos em participação (FIP) para um grupo de investidores e criou a T Properties, para o setor imobiliário. O primeiro movimento, no Ceará, envolveu a venda de 70% de imóvel turístico para um comprador via token. O restante pode ser vendido ou gerido pela empresa para locação, por exemplo.
O CEO da Netspaces, Andreas Blazoudakis, criou a iniciativa em 2020 para habilitar transações imobiliárias em tempo real, atrelando o token à matrícula do imóvel por meio de uma empresa criada especificamente para isso. Hoje, são 40 imóveis, cada um representado por token com governança específica e valor médio de R$ 500 mil.
O formato permitiu a venda de 20% de um apartamento para uma moradora, que paga aluguel sobre os 80% restantes. Uma sala comercial em Porto Alegre (RS) tem 9.000 proprietários, a maior parte brindada com uma fração promocional do token para experimentar o modelo. Novos formatos de financiamento incluem aquisição parcial do token, com compra de mais pedacinhos ao longo do tempo, ou compra total garantida pela alienação do token, não do imóvel. “Em caso de inadimplência, o proprietário não perde o bem e pode pagar o aluguel do restante”, diz Blazoudakis.
A Bolsa OTC criou um sistema para baratear a emissão de debênture ou ativos de crédito por meio de tokens que embutem processos como registro, liquidação e custódia de ativos e reduzem custos com advogados, auditoria interna e análise de crédito, ampliando o acesso por pequenas e médias empresas (PMEs). No lift, do BC, tokenizou CCB de R$ 10 milhões do Bradesco para analisar questões como potencial da automatização, privacidade e resiliência. Atualmente, tem projetos com três instituições e mira o mercado secundário. “Pequenos investidores podem acessar títulos de maior volume”, diz Paulo Oliveira, CEO da Bolsa OTC.
A plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) SMU finalizou em junho oferta de token de renda fixa em notas comerciais para o grupo Muda, especialista em gestão de resíduos, logística reversa e economia circular, que levantou R$ 600 mil. O projeto participou do ambiente de testes regulatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para criar mercado secundário de ativos tokenizados de crowdfunding.
Fonte: Valor Econômico















